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Mounjaro é para você? Tudo o que você precisa saber antes de começar

6 de ago.
7 min de leitura

Tudo bem se você está confusa(o). Todo mundo conhece alguém tomando Mounjaro. Mas a pergunta que quase ninguém faz é: será que ele faz sentido para o SEU tipo de fome? Neste texto, vou te ajudar a entender isso de forma simples e honesta.



Por que todo mundo está falando de Mounjaro?


Se você chegou até aqui, provavelmente já ouviu falar do Mounjaro: aquele medicamento injetável que tem dado o que falar nos consultórios, nas redes sociais e entre amigas(os). Promete perda de peso expressiva, controle do apetite e, segundo muitos, "mudou a minha relação com a comida".

E é verdade. A tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) é, de fato, um dos maiores avanços da medicina metabólica das últimas décadas. Mas, como médica que trabalha com nutrologia integrativa e esportiva, preciso te dizer uma coisa que nem sempre aparece nos depoimentos entusiasmados: o Mounjaro não é para todo mundo. E, mais importante: ele não funciona igual para todo mundo.

A obesidade não é uma doença única. Ela tem diferentes "retratos", o que a ciência chama de fenótipos. E entender qual é o seu fenótipo muda completamente a abordagem do tratamento.


Vou te explicar tudo isso de forma simples. Sem jargão médico, sem promessa mágica, com a verdade que você merece ouvir.


O que é o Mounjaro, afinal?

O Mounjaro é o nome comercial da tirzepatida, um medicamento injetável aplicado uma vez por semana. Ele foi aprovado pela Anvisa no Brasil tanto para o diabetes tipo 2 quanto para o controle crônico do peso em adultos com sobrepeso ou obesidade.

O que torna a tirzepatida especial é o seu mecanismo de ação: ela é um agonista duplo. Isso significa que ela imita dois hormônios intestinais ao mesmo tempo:

O GIP (péptido insulinotrópico dependente de glicose)

O GLP-1 (péptido semelhante ao glucagon-1)

Pense assim: esses dois hormônios são como mensageiros que o intestino envia para o cérebro dizendo "já comi o suficiente, pode parar". A tirzepatida potencializa esse sinal: ela "liga os dois interruptores" da saciedade ao mesmo tempo.

Já a semaglutida (Ozempic, Wegovy) liga apenas um deles (o GLP-1). Por isso a tirzepatida costuma apresentar resultados um pouco superiores em estudos clínicos.


Os 4 tipos de fome: qual é o seu?

Aqui chegamos ao coração da questão. A ciência classifica a obesidade em quatro fenótipos principais, ou seja, quatro "padrões" diferentes de como o corpo e o cérebro lidam com a fome e a saciedade.

Não é que você se encaixe em apenas um. Muitas pessoas têm uma mistura. Mas geralmente existe um que domina. E é ele que guia a escolha do tratamento mais eficaz.


1. Cérebro Faminto (Hungry Brain)

Você come e, tecnicamente, está satisfeito, mas o cérebro não "registra" a saciedade direito. É como se o aviso de "tanque cheio" estivesse com defeito. Você sente que comeu, mas logo depois o desejo volta.

Sinais de que pode ser o seu caso:

Você come uma refeição completa e, poucas horas depois, já está pensando em comida de novo;

Dificuldade de parar de comer mesmo quando já está satisfeito fisicamente;

Sensação de que "nunca é o suficiente".


2. Intestino Faminto (Hungry Gut)

Aqui o problema é a velocidade. O estômago esvazia rápido demais e a saciedade dura pouco. Você come, fica satisfeito, mas a sensação passa depressa.

Sinais:

Fome frequente entre as refeições, mesmo comendo porções adequadas;

Acorda de madrugada com fome;

Sente que a saciedade "evapora" rapidamente.


3. Fome Emocional (Emotional Hunger)

A comida aqui não é fome física, mas uma forma de recompensa, conforto e alívio emocional. O sistema de prazer do cérebro (o circuito dopaminérgico) é o protagonista.

Sinais:

Come em resposta a estresse, ansiedade, tristeza, tédio ou solidão;

Desejos intensos por alimentos específicos (geralmente doces ou ultraprocessados);

Come mesmo sem fome física, e depois sente culpa.


4. Queima Lenta (Slow Burning)

O metabolismo funciona em ritmo reduzido. O corpo "queima" calorias mais devagar e tem dificuldade de usar a gordura como fonte de energia.

Sinais:

Dificuldade de emagrecer mesmo comendo pouco;

Cansaço, sensação de metabolismo "travado";

Ganho de peso com facilidade, mesmo com esforço para manter hábitos saudáveis.


Onde o Mounjaro funciona melhor?

Agora que você conhece os fenótipos, fica mais fácil entender por que o Mounjaro não é uma bala de prata. A tirzepatida atua em três frentes que cobrem boa parte dos fenótipos:


1. Retarda o esvaziamento gástrico: alvo direto no intestino faminto. A comida fica mais tempo no estômago, a saciedade dura mais.


2. Modula o sistema nervoso central: age no hipotálamo, reduzindo o apetite, os desejos e a recompensa alimentar. Isso ajuda no cérebro faminto e, em parte, na fome emocional.


3. Aumenta a oxidação de gordura: um benefício extra interessante para o fenótipo de queima lenta. Um estudo publicado em 2025 pelo Pennington Biomedical Research Center, liderado pelo pesquisador Eric Ravussin, mostrou que a tirzepatida aumentou a oxidação de gordura (ou seja, o corpo passou a usar mais gordura como energia) sem piorar a adaptação metabólica.


E há um dado ainda mais fascinante: um estudo recente, publicado em 2026 por Ticho e colaboradores, identificou um subfenótipo de obesidade com produção reduzida de GLP-1 intestinal que apresentou resposta potencializada à tirzepatida. Ou seja: pessoas que naturalmente produzem menos GLP-1 parecem ser as que mais se beneficiam do medicamento.


Isso aponta para um futuro de medicina personalizada, em que o tratamento é escolhido de acordo com o seu perfil único, e não de forma genérica para "todo mundo que quer emagrecer".


Efeitos esperados: o que a ciência realmente mostra

Vamos aos números, porque você merece dados concretos.

No estudo pivotal SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine (um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo), os resultados foram os seguintes:

Redução média de até 22,5% do peso corporal em 72 semanas de tratamento (na dose de 15 mg);

Aproximadamente 91% dos participantes perderam 5% ou mais do peso inicial;

A perda foi significativa em massa gorda, não apenas peso total.Isso é expressivo. Mas é fundamental entender três coisas:

Primeiro: esses números são médias. Sua resposta individual pode ser maior, menor ou diferente: depende do seu fenótipo, da sua adesão, do seu sono, do seu nível de estresse e da sua atividade física.

Segundo: o Mounjaro não age sozinho. Ele abre uma janela de oportunidade (menos fome, mais clareza, menos impulsividade), mas é nesse momento que você precisa construir os pilares: alimentação anti-inflamatória, treino periodizado, regulação do sono e da mente.

Terceiro: se você parar o medicamento sem ter construído essas bases, o peso tende a voltar. A literatura é clara sobre isso.


Quando o Mounjaro NÃO é para você

Como médica, preciso ser honesta: existem situações em que o Mounjaro não deve ser usado ou exige cautela redobrada. São elas:

História pessoal ou familiar de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM 2) ou carcinoma medular de tireoide;

Pancreatite prévia;

Gastroparesia severada (justamente porque o medicamento retarda ainda mais o esvaziamento gástrico);

Gestantes ou mulheres amamentando.

E, acima de tudo: sem um plano de reeducação alimentar, treinamento e sono, o peso volta. O Mounjaro é uma ferramenta, não uma solução mágica.


A visão integrativa: por que a medicação é só o começo

Como nutróloga integrativa e esportiva, eu vejo o Mounjaro como uma ferramenta poderosa, mas não como destino final.

Ele abre uma janela de oportunidade: menos fome, mais clareza mental, menos impulsividade alimentar. E é exatamente nesse momento que construímos a verdadeira transformação:

Periodização nutricional anti-inflamatória: não dieta restritiva, mas estratégia alimentar inteligente

Treinamento periodizado: força e cardio na medida certa para o seu corpo

Regulação do sistema nervoso: meditação, sono de qualidade, técnicas de relaxamento

Reprogramação de crenças e padrões subconscientes: porque a fome emocional não se resolve com injeção.

Costumo dizer para meus pacientes: a flor de lótus precisa da lama para crescer. A medicação é o fertilizante. Mas o crescimento, esse é seu.

A dor que te trouxe até aqui, o peso que você carrega (físico e emocional), pode se transformar em crescimento. É esse o meu propósito como médica: não apenas prescrever, mas caminhar com você nessa transformação completa.


Perguntas frequentes

Posso tomar Mounjaro só para emagrecer um pouquinho?

Não recomendo. O Mounjaro é um medicamento sério, indicado para controle crônico do peso em pessoas com sobrepeso com comorbidades ou obesidade. Usar sem indicação clínica adequada expõe você a riscos desnecessários.

Vou ter que tomar para sempre?

A obesidade é uma doença crônica. Para muitas pessoas, o tratamento medicamentoso de manutenção é necessário a longo prazo, assim como hipertensão ou diabetes. Mas a dose de manutenção costuma ser menor, e o estilo de vida construído durante o tratamento faz toda a diferença.

E os efeitos colaterais?

Os mais comuns são náusea, diarreia, constipação, vômito e dor abdominal, geralmente mais intensos no início e na escalada de dose. A maioria tolera bem com ajustes alimentares. Efeitos mais graves (pancreatite, por exemplo) são raros, mas existem. Por isso o acompanhamento médico é inegociável.

Mounjaro é melhor que Ozempic?

Não existe "melhor" em abstrato. A tirzepatida (Mounjaro) tem mostrado resultados numericamente superiores em estudos diretos, mas a escolha depende do seu fenótipo, da sua tolerância e da avaliação clínica individual. Não é uma decisão que se toma comparando rótulos.


O que fazer agora?

Se você chegou até aqui e está considerando o Mounjaro, ou já toma e quer fazer isso direito, faça estas três perguntas para si mesma:

  • Qual é o meu fenótipo de fome? (Cérebro, intestino, emocional ou queima lenta?)

  • Estou construindo os pilares de base? (Alimentação, treino, sono, regulação mental)

  • Meu médico investigou as contraindicações comigo?


Se alguma dessas respostas está em branco, é hora de olhar com mais cuidado.


Agende uma consulta para avaliarmos o seu caso de forma individualizada, com olhar integrativo: corpo, mente e metabolismo juntos. Não existe fórmula pronta. Existe o caminho certo para você.


Dra. Bruna Ribeiro - CRMRS 47796


As informações contidas são de caráter educativo e não substituem a consulta médica individualizada.


Referências científicas:

Para quem gosta de conferir as fontes (e você deveria!), aqui estão os estudos mencionados neste texto:

Jastreboff et al. (2022). Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity: New England Journal of Medicine. Acessar estudo

Acosta et al. (2021). Selection of Antiobesity Medications Based on Phenotypes Enhances Weight Loss Obesity. Acessar estudo

Ticho et al. (2026). A Subphenotype of Obesity With Reduced Enteroendocrine GLP-1 Synthesis and Enhanced Tirzepatide Response: PubMed. Acessar estudo

Ravussin et al. (2025). Tirzepatide did not impact metabolic adaptation in people with obesity, but increased fat oxidation: PubMed. Acessar estudo

Review de mecanismo de ação (2025). Insights into the Mechanism of Action of Tirzepatide: A Narrative Review: Diabetes Therapy. Acessar estudo

Anvisa. Mounjaro (tirzepatida): nova indicação para controle crônico do peso. Acessar documento

 
 
 

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