Mounjaro é para você? Tudo o que você precisa saber antes de começar
Tudo bem se você está confusa(o). Todo mundo conhece alguém tomando Mounjaro. Mas a pergunta que quase ninguém faz é: será que ele faz sentido para o SEU tipo de fome? Neste texto, vou te ajudar a entender isso de forma simples e honesta.

Por que todo mundo está falando de Mounjaro?
Se você chegou até aqui, provavelmente já ouviu falar do Mounjaro: aquele medicamento injetável que tem dado o que falar nos consultórios, nas redes sociais e entre amigas(os). Promete perda de peso expressiva, controle do apetite e, segundo muitos, "mudou a minha relação com a comida".
E é verdade. A tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) é, de fato, um dos maiores avanços da medicina metabólica das últimas décadas. Mas, como médica que trabalha com nutrologia integrativa e esportiva, preciso te dizer uma coisa que nem sempre aparece nos depoimentos entusiasmados: o Mounjaro não é para todo mundo. E, mais importante: ele não funciona igual para todo mundo.
A obesidade não é uma doença única. Ela tem diferentes "retratos", o que a ciência chama de fenótipos. E entender qual é o seu fenótipo muda completamente a abordagem do tratamento.
Vou te explicar tudo isso de forma simples. Sem jargão médico, sem promessa mágica, com a verdade que você merece ouvir.
O que é o Mounjaro, afinal?
O Mounjaro é o nome comercial da tirzepatida, um medicamento injetável aplicado uma vez por semana. Ele foi aprovado pela Anvisa no Brasil tanto para o diabetes tipo 2 quanto para o controle crônico do peso em adultos com sobrepeso ou obesidade.
O que torna a tirzepatida especial é o seu mecanismo de ação: ela é um agonista duplo. Isso significa que ela imita dois hormônios intestinais ao mesmo tempo:
O GIP (péptido insulinotrópico dependente de glicose)
O GLP-1 (péptido semelhante ao glucagon-1)
Pense assim: esses dois hormônios são como mensageiros que o intestino envia para o cérebro dizendo "já comi o suficiente, pode parar". A tirzepatida potencializa esse sinal: ela "liga os dois interruptores" da saciedade ao mesmo tempo.
Já a semaglutida (Ozempic, Wegovy) liga apenas um deles (o GLP-1). Por isso a tirzepatida costuma apresentar resultados um pouco superiores em estudos clínicos.
Os 4 tipos de fome: qual é o seu?
Aqui chegamos ao coração da questão. A ciência classifica a obesidade em quatro fenótipos principais, ou seja, quatro "padrões" diferentes de como o corpo e o cérebro lidam com a fome e a saciedade.
Não é que você se encaixe em apenas um. Muitas pessoas têm uma mistura. Mas geralmente existe um que domina. E é ele que guia a escolha do tratamento mais eficaz.
1. Cérebro Faminto (Hungry Brain)
Você come e, tecnicamente, está satisfeito, mas o cérebro não "registra" a saciedade direito. É como se o aviso de "tanque cheio" estivesse com defeito. Você sente que comeu, mas logo depois o desejo volta.
Sinais de que pode ser o seu caso:
Você come uma refeição completa e, poucas horas depois, já está pensando em comida de novo;
Dificuldade de parar de comer mesmo quando já está satisfeito fisicamente;
Sensação de que "nunca é o suficiente".
2. Intestino Faminto (Hungry Gut)
Aqui o problema é a velocidade. O estômago esvazia rápido demais e a saciedade dura pouco. Você come, fica satisfeito, mas a sensação passa depressa.
Sinais:
Fome frequente entre as refeições, mesmo comendo porções adequadas;
Acorda de madrugada com fome;
Sente que a saciedade "evapora" rapidamente.
3. Fome Emocional (Emotional Hunger)
A comida aqui não é fome física, mas uma forma de recompensa, conforto e alívio emocional. O sistema de prazer do cérebro (o circuito dopaminérgico) é o protagonista.
Sinais:
Come em resposta a estresse, ansiedade, tristeza, tédio ou solidão;
Desejos intensos por alimentos específicos (geralmente doces ou ultraprocessados);
Come mesmo sem fome física, e depois sente culpa.
4. Queima Lenta (Slow Burning)
O metabolismo funciona em ritmo reduzido. O corpo "queima" calorias mais devagar e tem dificuldade de usar a gordura como fonte de energia.
Sinais:
Dificuldade de emagrecer mesmo comendo pouco;
Cansaço, sensação de metabolismo "travado";
Ganho de peso com facilidade, mesmo com esforço para manter hábitos saudáveis.
Onde o Mounjaro funciona melhor?
Agora que você conhece os fenótipos, fica mais fácil entender por que o Mounjaro não é uma bala de prata. A tirzepatida atua em três frentes que cobrem boa parte dos fenótipos:
1. Retarda o esvaziamento gástrico: alvo direto no intestino faminto. A comida fica mais tempo no estômago, a saciedade dura mais.
2. Modula o sistema nervoso central: age no hipotálamo, reduzindo o apetite, os desejos e a recompensa alimentar. Isso ajuda no cérebro faminto e, em parte, na fome emocional.
3. Aumenta a oxidação de gordura: um benefício extra interessante para o fenótipo de queima lenta. Um estudo publicado em 2025 pelo Pennington Biomedical Research Center, liderado pelo pesquisador Eric Ravussin, mostrou que a tirzepatida aumentou a oxidação de gordura (ou seja, o corpo passou a usar mais gordura como energia) sem piorar a adaptação metabólica.
E há um dado ainda mais fascinante: um estudo recente, publicado em 2026 por Ticho e colaboradores, identificou um subfenótipo de obesidade com produção reduzida de GLP-1 intestinal que apresentou resposta potencializada à tirzepatida. Ou seja: pessoas que naturalmente produzem menos GLP-1 parecem ser as que mais se beneficiam do medicamento.
Isso aponta para um futuro de medicina personalizada, em que o tratamento é escolhido de acordo com o seu perfil único, e não de forma genérica para "todo mundo que quer emagrecer".
Efeitos esperados: o que a ciência realmente mostra
Vamos aos números, porque você merece dados concretos.
No estudo pivotal SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine (um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo), os resultados foram os seguintes:
Redução média de até 22,5% do peso corporal em 72 semanas de tratamento (na dose de 15 mg);
Aproximadamente 91% dos participantes perderam 5% ou mais do peso inicial;
A perda foi significativa em massa gorda, não apenas peso total.Isso é expressivo. Mas é fundamental entender três coisas:
Primeiro: esses números são médias. Sua resposta individual pode ser maior, menor ou diferente: depende do seu fenótipo, da sua adesão, do seu sono, do seu nível de estresse e da sua atividade física.
Segundo: o Mounjaro não age sozinho. Ele abre uma janela de oportunidade (menos fome, mais clareza, menos impulsividade), mas é nesse momento que você precisa construir os pilares: alimentação anti-inflamatória, treino periodizado, regulação do sono e da mente.
Terceiro: se você parar o medicamento sem ter construído essas bases, o peso tende a voltar. A literatura é clara sobre isso.
Quando o Mounjaro NÃO é para você
Como médica, preciso ser honesta: existem situações em que o Mounjaro não deve ser usado ou exige cautela redobrada. São elas:
História pessoal ou familiar de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM 2) ou carcinoma medular de tireoide;
Pancreatite prévia;
Gastroparesia severada (justamente porque o medicamento retarda ainda mais o esvaziamento gástrico);
Gestantes ou mulheres amamentando.
E, acima de tudo: sem um plano de reeducação alimentar, treinamento e sono, o peso volta. O Mounjaro é uma ferramenta, não uma solução mágica.
A visão integrativa: por que a medicação é só o começo
Como nutróloga integrativa e esportiva, eu vejo o Mounjaro como uma ferramenta poderosa, mas não como destino final.
Ele abre uma janela de oportunidade: menos fome, mais clareza mental, menos impulsividade alimentar. E é exatamente nesse momento que construímos a verdadeira transformação:
Periodização nutricional anti-inflamatória: não dieta restritiva, mas estratégia alimentar inteligente
Treinamento periodizado: força e cardio na medida certa para o seu corpo
Regulação do sistema nervoso: meditação, sono de qualidade, técnicas de relaxamento
Reprogramação de crenças e padrões subconscientes: porque a fome emocional não se resolve com injeção.
Costumo dizer para meus pacientes: a flor de lótus precisa da lama para crescer. A medicação é o fertilizante. Mas o crescimento, esse é seu.
A dor que te trouxe até aqui, o peso que você carrega (físico e emocional), pode se transformar em crescimento. É esse o meu propósito como médica: não apenas prescrever, mas caminhar com você nessa transformação completa.
Perguntas frequentes
Posso tomar Mounjaro só para emagrecer um pouquinho?
Não recomendo. O Mounjaro é um medicamento sério, indicado para controle crônico do peso em pessoas com sobrepeso com comorbidades ou obesidade. Usar sem indicação clínica adequada expõe você a riscos desnecessários.
Vou ter que tomar para sempre?
A obesidade é uma doença crônica. Para muitas pessoas, o tratamento medicamentoso de manutenção é necessário a longo prazo, assim como hipertensão ou diabetes. Mas a dose de manutenção costuma ser menor, e o estilo de vida construído durante o tratamento faz toda a diferença.
E os efeitos colaterais?
Os mais comuns são náusea, diarreia, constipação, vômito e dor abdominal, geralmente mais intensos no início e na escalada de dose. A maioria tolera bem com ajustes alimentares. Efeitos mais graves (pancreatite, por exemplo) são raros, mas existem. Por isso o acompanhamento médico é inegociável.
Mounjaro é melhor que Ozempic?
Não existe "melhor" em abstrato. A tirzepatida (Mounjaro) tem mostrado resultados numericamente superiores em estudos diretos, mas a escolha depende do seu fenótipo, da sua tolerância e da avaliação clínica individual. Não é uma decisão que se toma comparando rótulos.
O que fazer agora?
Se você chegou até aqui e está considerando o Mounjaro, ou já toma e quer fazer isso direito, faça estas três perguntas para si mesma:
Qual é o meu fenótipo de fome? (Cérebro, intestino, emocional ou queima lenta?)
Estou construindo os pilares de base? (Alimentação, treino, sono, regulação mental)
Meu médico investigou as contraindicações comigo?
Se alguma dessas respostas está em branco, é hora de olhar com mais cuidado.
Agende uma consulta para avaliarmos o seu caso de forma individualizada, com olhar integrativo: corpo, mente e metabolismo juntos. Não existe fórmula pronta. Existe o caminho certo para você.
Dra. Bruna Ribeiro - CRMRS 47796
As informações contidas são de caráter educativo e não substituem a consulta médica individualizada.
Referências científicas:
Para quem gosta de conferir as fontes (e você deveria!), aqui estão os estudos mencionados neste texto:
Jastreboff et al. (2022). Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity: New England Journal of Medicine. Acessar estudo
Acosta et al. (2021). Selection of Antiobesity Medications Based on Phenotypes Enhances Weight Loss Obesity. Acessar estudo
Ticho et al. (2026). A Subphenotype of Obesity With Reduced Enteroendocrine GLP-1 Synthesis and Enhanced Tirzepatide Response: PubMed. Acessar estudo
Ravussin et al. (2025). Tirzepatide did not impact metabolic adaptation in people with obesity, but increased fat oxidation: PubMed. Acessar estudo
Review de mecanismo de ação (2025). Insights into the Mechanism of Action of Tirzepatide: A Narrative Review: Diabetes Therapy. Acessar estudo
Anvisa. Mounjaro (tirzepatida): nova indicação para controle crônico do peso. Acessar documento




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